domingo, 27 de maio de 2018

Conheça obras de ficção científica no Brasil - por Marco Aurélio Lucchetti (Adaptação web Caroline Svitras)

Em dezembro de 2007, a Editora Devir, de São Paulo, lançou em sua coleção Pulsar, a antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, que reúne cronologicamente onze histórias, publicadas entre 1882 e 1997, incluindo até o pouco conhecido Ricardo Teixeira, escritor fluminense de origem portuguesa


Em abril de 2012, a mesma editora fez a primeira reimpressão do livro. É um exemplar dessa reimpressão que tenho nas mãos, para escrever esta resenha. Editado pelo escritor Roberto de Sousa Causo (seus contos apareceram nas mais diversas revistas brasileiras, como Ciência Hoje, Dragão Brasil, Isaac Asimov Magazine, Playboy e em publicações da Argentina, Canadá, China, Finlândia, França, Grécia, Portugal, República Tcheca e Rússia), que também é ensaísta (é autor do monumental Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950, publicado em 2003 pela Editora UFMG, de Belo Horizonte), ilustrador, antologista e resenhista (algumas de suas resenhas foram publicadas na extinta Isaac Asimov Magazine, a versão brasileira da norte-americana Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine), Os Melhores Contos de Ficção Científica é uma obra importante, pois apresenta um panorama da evolução da ficção científica em nosso país, além de lembrar, principalmente para leitores e críticos preconceituosos – que consideram a ficção científica um gênero menor –, que algumas das figuras de maior prestígio da nossa Literatura escreveram histórias nesse gênero.

O livro inicia com uma introdução, na qual Causo historia de forma concisa a ficção científica no Brasil. Só essa introdução, que é bastante informativa (mas sem didatismo) e tem o subtítulo de Um Resgate da Ficção Científica Brasileira, já faz a antologia merecer ser comprada e lida.

O primeiro conto, intitulado O Imortal, foi escrito por Machado de Assis (1839-1908). Sempre que se fala em Machado de Assis, vêm à mente os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1900). Não são muitos leitores que se lembram dos contos machadianos. Porém, Machado de Assis escreveu uma grande quantidade de contos (dentre os mais conhecidos desses contos, podemos citar: Cantiga de Esponsais, A Cartomante, O Enfermeiro, A Igreja do Diabo, Missa do Galo Noites de Almirante). E alguém já disse que “a forma literária a que melhor se adequou o gênio criador de Machado de Assis foi, sem dúvida, o conto”. Portanto, O Imortal é uma excelente oportunidade para se conhecer o talento de Machado de Assis como contista.

Publicado pela primeira vez em 1882, entre 15 de julho e 15 de setembro, em seis partes, na revista feminina carioca A Estação, O Imortal é baseado num outro conto de Machado, Rui de Leão e narra a história de um homem que, graças a uma poção indígena, não consegue morrer.
“Um dia, dizendo-lhe eu que não compreendia tamanha tristeza, quando eu daria a alma ao diabo para ter a vida eterna, meu pai sorriu com tal expressão de superioridade, que me enterrou cem palmos abaixo do chão. Depois, respondeu que eu não sabia o que dizia; que a vida eterna afigurava-se-me excelente, justamente porque a minha era limitada e curta; em verdade, era o mais atroz dos suplícios.Tinha visto morrer todas as suas afeições; devia perder-me um dia, e todos os mais filhos que tivesse pelos séculos adiante. (…) Tinha provado tudo, esgotado tudo; agora, era a repetição, a monotonia, sem esperança, sem nada. Tinha de relatar a outros filhos, vinte ou trinta séculos mais tarde, o que estava agora dizendo; e depois a outros, e outros, e outros, e outros, um não acabar mais nunca.” - trecho de "O Imortal"
O conto seguinte, Meu Sósia, é da autoria de Gastão Cruls (1888-1959). Filho de Louis Ferdinand Cruls (1848-1908), geógrafo e astrônomo belga radicado no Brasil, Gastão Cruls exerceu a medicina e foi bibliotecário, romancista, contista e historiador. Dentre os romances de Gastão Cruls, destacam-se: A Amazônia Misteriosa (1925), um dos mais importantes romances brasileiros de ficção científica, e Elza e Helena (1927), que tem como tema o desdobramento da personalidade (uma mulher vive dupla vida). E Meu Sósia, produzido provavelmente sob a influência de William Wilson (1840), do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), enfoca o tema do duplo. O narrador, Paulo de Alencastro, é um funcionário público que se tornou um assíduo frequentador da Biblioteca Nacional, a fim de colher informações em antigas obras relativas à História da América, pois pretendia escrever um romance no qual haveria “páginas de evocação ao brutal despertar do Novo Mundo, sob o pulso implacável dos conquistadores”. E, em suas visitas à Biblioteca Nacional, Paulo toma conhecimento de que outra pessoa consulta essas mesmas obras. A seguir, descobre que essa pessoa tem grande semelhança com ele, também se chama Paulo de Alencastro e – absurdo dos absurdos!– está escrevendo um romance parecido com o seu. Depois, no final, o leitor fica se perguntando se tudo não passa de uma alucinação de Paulo, já que a história é narrada em primeira pessoa. Os cinco contos seguintes, Água de Nagasáqui, A Espingarda, O Copo de Cristal, O Último Artilheiro Especialmente, Quando Sopra Outubro, são frutos da Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira, aquele período especialmente fértil iniciado em 1958 e terminado em 1971.

Escrito por Domingos Carvalho da Silva (1915-2003) e publicado originalmente na antologia Além do Tempo e do Espaço: 13 Contos de Cientificção, Água de Nagasáqui expressa o temor da guerra atômica e dos efeitos da radiação, narrando, em tom melancólico, a história de Takeo Matusaki, um japonês que, após beber água e comer frutos dos arredores de Nagasáqui, torna-se radioativo e, apesar de não morrer, transforma em defuntos todos os parentes (inclusive os pais) e amigos. Relativo a A Espingarda, podemos dizer que foi concebido por um dos principais nomes da ficção científica brasileira, André Carneiro, é um dos contos do livro O Homem Que Adivinhava (1966) e descreve o desastroso encontro de dois sobreviventes do holocausto nuclear, deixando evidente, como reconheceu a crítica norte-americana M. Elizabeth Ginway, “traços da tensão existente entre o Brasil desenvolvido do Sul e o Brasil subdesenvolvido do Norte”.

Quanto a O Copo da Cristal, é uma narrativa envolvente, escrita por Jeronymo Monteiro (1908-1970). Esta resenha não estaria completa, se não falássemos um pouco do escritor e jornalista Jerônymo Monteiro.



Bastante ativo nos anos 1930 e 1940, Jerônymo Monteiro dedicou-se à literatura infantil, à literatura de Detetive & Mistério (escreveu, sob o pseudônimo de Ronnie Wells, as aventuras do detetive Dick Peter, que foram narradas num seriado radiofônico e também numa série de livros e em histórias em quadrinhos desenhadas primeiramente por Messias de Mello e, depois, por Jayme Cortez) e às histórias de ficção científica. Foi Diretor de Redação do Magazine de Ficção Científica, a versão brasileira da revista norte-americana The Magazine of Fantasy and Science Fiction. Dentre suas obras de ficção científica, gostaríamos de destacar: a coletânea Tangentes da Realidade (1969) e as novelas 3 Meses no Século 81 (1947) e o Os Visitantes do Espaço (1963). Voltando, agora, a falar de O Copo de Cristal. O conto foi concluído em maio de 1964 e incluído em Tangentes da Realidade; e relata a história de um copo, feito de um estranho cristal inquebrável, que, à noite, reflete uma luz azulada na qual podem ser vistas guerras do passado e do futuro e um porvir nada promissor para o ser humano na Terra.
“Passaram toda a noite imersos no mundo luminoso do copo de cristal; ela vendo massas humanas a caminhar por um terreno sem fim, entremeadas de pesados carros de guerra. Via o brilho das armas, das pontas das lanças; o reflexo da luz nas lâminas de espadas desembainhadas. Via rolos de pó erguerem-se por cima dos soldados. Ele via apenas sombras de movimentos caprichosos, (…) ouvindo, empolgado, a descrição que Car fazia das cenas. (…) Era como se, tremendamente míope (…).estivesse vendo um filme sem óculos.” - trecho de "O Copo de Cristal"
No que diz respeito a O Último Artilheiro, que faz parte de O 3° Planeta, uma antologia de histórias escritas e ilustradas pelo artista plástico e arquiteto Levy Menezes (1922-1991), Roberto de Sousa Causo escreveu o seguinte, na introdução do conto: “(…) é uma história de pós-apocalipse. (…) a narrativa envolve e nos faz penetrar na mente desesperada de um sobrevivente a vagar por um mundo que parece aguardar a qualquer momento o seu último suspiro – talvez sob a forma do troar de um canhão.” E Especialmente, Quando Sopra Outubro, cuja protagonista é uma menina solitária chamada Ângela, que tem o dom de materializar seres e coisas criadas em sua imaginação, é um conto de Rubens Teixeira Scavone (1925-2007), autor dos romances O Homem Que Viu o Disco-Voador, Degrau para as Estrelas (1961), O Lírio e a Antípoda (1965), Clube de Campo (1973) e O 31° Peregrino (1993). Escrito com grande lirismo, no qual se nota influência de Ray Bradbury (1920-2012), Especialmente, Quando Sopra Outubro foi publicado pela primeira vez no livro de contos Passagem para Júpiter (1971).
“Não precisava fechar os olhos, mas apenas recorrer ao tenaz impulso da sua vontade: e lá surgia o seu mundo. Quando as coisas começavam a delinear-se, a concentração aumentava, tornava-se imperioso continuar. Os olhinhos da menina se contraíam, fixavam-se com angústia no ponto visado: a clareira banhada por uma réstia de luz, o espaço vazio no lago em meio aos nenúfares, o caminho da encosta ladeado pelos abetos. Então, as aparições iam se configurando.” - trecho de "Especialmente, Quando Sopra Outubro"
As últimas quatro histórias de Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica são: Exercícios de Silêncio, escrita pela médica homeopata Finisia Fideli, possivelmente a principal autora brasileira de ficção científica; A Morte do Cometa, da autoria de Jorge Luiz Calife, que ficou famoso por ter fornecido a Arthur C. Clarke (1917-2008) a ideia para 2010: Uma Odisseia no Espaço II (2010: Odyssey Two, 1982), a continuação de 2001: Odisseia no Espaço (2001 – A Space Odyssey, 1968); A Nuvem, que marcou a estreia profissional de Ricardo Teixeira e foi publicada na antologia Dinossauria Tropicalia, organizada por Roberto de Sousa Causo e lançada em 1994 pelas Edições GRD; e A Mulher Mais Bela do Mundo, criada por Roberto de Sousa Causo e que procura retratar o tema do contato entre humanos e alienígenas sob um prisma terceiro-mundista.
“Era um holoprojetor. Mostrava imagens do planeta do embaixador, imagens de um  undo super populoso, com seus habitantes empilhados em favelas-arranha-céus, prédios lutando ombro a ombro para se pendurarem sobre encostas de montanhas. Seu ‘povo’ andando em andrajos, atirando o lixo morro abaixo, enchendo as margens dos rios com ele, morrendo aos milhares em enchentes e chuvas torrenciais (…).” - trecho de "A Mulher Mais Bela do Mundo"
Para concluir, resta dizer que antologias como Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica são sempre bem-vindas, pois normalmente trazem para o presente histórias que estavam perdidas em antigos livros e revistas.

Marco Aurélio Lucchetti é escritor, graduado em Letras e Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da USP. É autor de As Sedutoras dos Quadrinhos, A Ficção Científica nos Quadrinhos e Realidade-Fantasia em Valentina – O Quadrinho Autoral no Exemplo Guido Crepax.

Adaptação do texto “Um panorama da ficção científica brasileira”

Revista Conhecimento Prático Literatura Ed. 58

sábado, 26 de maio de 2018

Sobre a cobrança abusiva de combustível em tempos de crise - Hans Robert Dalbello Braga


Diante de inúmeros pedidos de alguns alunos e colegas realizei uma breve análise jurídico-penal a respeito da cobrança abusiva de combustível em razão da greve dos caminhoneiros.

Conforme as inúmeras notícias veiculadas na imprensa, bem como as centenas de reclamações de consumidores, houve centenas de casos de fornecedores, especialmente postos revendedores de combustíveis, valendo-se da greve geral de caminhoneiros, para elevaram os preços de seus produtos a patamares absurdos, exorbitantes e, sobretudo, abusivos.

Assim sendo, a pergunta que deve ser respondida é a seguinte: As pessoas físicas, empresários, gerentes etc., que determinaram a elevação abusiva dos preços, durante grave crise econômica, incorreram em crime? No nosso entendimento sim!

Destarte, com a devida vênia, em respeito aos mais entendidos, segue nosso entendimento sobre a matéria:

Preliminarmente, é forçoso salientar que o art. 39, inciso X da Lei n.º 8.078/90, o Código de Defesa do Consumidor, considera como prática abusiva, a elevação, sem justa causa, de preço de produtos ou serviços.


Ademais, o aumento arbitrário e abusivo de lucro e a outorga de preços excessivos são, independentemente de responsabilidade subjetiva, infrações à ordem econômica, expressamente previstas no art. 36, inciso III, da Lei n.º 12.529/11.


A conduta de elevar os preços de mercadorias ou serviços em razão da sua temporária escassez por falta de fornecimento caracteriza infração grave às disposições do CDC, podendo o fornecedor incorrer, conforme o caso concreto, nas mais variadas e diversas sanções administrativas, sem prejuízo das de natureza civil e outras muitas, tais como: multa; apreensão do produto; inutilização do produto; suspensão de fornecimento de produtos e serviços; interdição total ou parcial, do estabelecimento; interdição administrativa; revogação da concessão ou permissão de uso etc.

No caso em tela existe, sem dúvidas, manifesto conflito aparente de normas penais, haja vista que a essa situação factual podem, aparentemente, ser aplicadas normas penais diversas. Entretanto, há tipo penal específico que tutela a economia popular de práticas abusivas como esta, que agride não só o direito de inúmeros consumidores, mas, sobretudo, a própria economia popular.

No caso em tela, considerando o que dispõe a Lei n.º 1.521/51, sobre crimes contra a economia popular, especialmente em seu art. 3.º, inciso VI, que dispõe in verbis: “São também crimes desta natureza: provocar a alta ou baixa de preços de mercadorias, títulos públicos, valores ou salários por meio de notícias falsas, operações fictícias ou qualquer outro artifício”; entendemos caracterizado CRIME CONTRA A ECONOMIA POPULAR, previsto, conforme foi supracitado, no art. 3.º, inciso VI da Lei n.º 1.521/51.


O tipo penal supracitado é comum, pois pode ser praticado por qualquer pessoa (gerente, empresário, funcionário etc.) e tem como sujeito passivo a coletividade em geral. A conduta tipificada vem representada pelo verbo provocar que significa promover, causar etc., de modo que a provocação de alta ou baixa de preços pode ocorrer por meio de notícias falsas, operações fictícias ou qualquer outro artifício. Portanto, o tipo penal autoriza a interpretação analógica, viabilizando a adequação típica ao caso concreto, pois os distribuidores e postos de combustíveis estão se utilizando da falta de entrega dos produtos consumíveis para, simplesmente, aumentar exponencialmente os preços dos combustíveis (gasolina, etanol e diesel, produtos conceituados na Lei n.º 9.478/97).

O crime em análise estará consumado no momento em que ocorre a efetiva alta do preço com o anúncio ou cobrança, por exemplo no momento de cobrar o valor na bomba de combustível.

É forçoso frisar que não entendemos caracterizado o crime previsto no art. 2.º, inciso VI da Lei n.º 1.521/51, que tem a seguinte redação: “São crimes desta natureza: transgredir tabelas oficiais de gêneros e mercadorias, ou de serviços essenciais, bem como expor à venda ou oferecer ao público ou vender tais gêneros, mercadorias ou serviços, por preço superior ao tabelado, assim como não manter afixadas, em lugar visível e de fácil leitura, as tabelas de preços aprovadas pelos órgãos competentes”.

E isso, pelas seguintes razões: 1.º a gasolina não é produto efetivamente tabelado, pois o preço pode variar conforme o mercado e os postos de gasolina, desde que em padrões razoáveis; 2.º o art. 2.º, inciso VI da Lei n.º 1.521/51, foi revogado pelo art. 6.º, inciso I da Lei n.º 8.137/90, que, por sua vez, foi expressamente revogado pelo art. 127 da Lei n.º 12.259/11, tornando a conduta descriminalizada (vide art. 2.º do CP, que trata da abolitio criminis), de modo que passaram a ser consideradas meras infrações contra a ordem econômica, sendo o infrator punido administrativamente, com penas que variam entre multa, proibição de contratar com o Poder Público, entre outras. Ademais, é importante salientar que o art. 2.º, inciso VI, da Lei n.º 1.521/51, não poderá ser aplicado, haja vista o disposto no art. 2.º §3.º, do Decreto-Lei n.º 4.657/42, com a redação dada pela Lei n.º 12.376/10, a LINDB, que veda a repristinação, salvo disposição em contrário.

Nesse sentido, também não está caracterizado o crime previsto no art. 1.º da Lei n.º 8.176/91, pois esta infração penal só se caracteriza com as condutas de adquirir, distribuir e revender derivados de petróleo, gás natural e suas frações recuperáveis, álcool etílico, hidratado carburante e demais combustíveis líquidos carburantes, em desacordo com as normas estabelecidas na forma da lei, ou seja, tem aplicação no que tange à forma de armazenamento dos derivados de petróleo e outros, que gerem riscos à incolumidade pública.

Assim, resta caracterizado o crime previsto no art. 3.º, inciso VI da Lei n.º 1.521/51, que pretende tutelar o bem jurídico ‘relações de consumo’, ou seja, o regular relacionamento entre os agentes da produção e fornecimento de bens e serviços e os consumidores, pois a conduta típica, ilícita e culpável, atinge ou pode atingir, por ser um crime de perigo abstrato, um número indeterminado de pessoas.

Entretanto, em razão da política criminal da mínima intervenção do Direito Penal que é subsidiário e fragmentário, alguns poderiam afirmar que essa conduta deveria ser tratada apenas no âmbito administrativo, o que não concordamos! Pois, se o estelionato (vide art. 171 do CP) apresenta bem jurídico definido, ainda que tenha como sujeito passivo pessoa ou pessoas determinadas, quanto mais um tipo penal que pretende proteger um número indeterminado de indivíduos.

Para buscar a legitimidade de uma determinada norma penal incriminadora econômica, deverá o hermeneuta, inicialmente, distinguir se o tipo revela-se como protetor de um bem jurídico, no caso, a ordem econômica, ou se simplesmente serve a uma função estatal, que encerre apenas atividades administrativas do Estado, referentes ao controle sobre determinado setor da vida de relação ou de seu próprio organismo, o que não acontece no caso, pois são os próprios consumidores, cidadãos em geral, os maiores prejudicados.

Portanto, a cobrança abusiva de combustível com preços exorbitantes caracteriza CRIME CONTRA A ECONOMIA POPULAR!

O futuro apocalíptico, muito bem retratado no filme MAD MAX, não deve prevalecer e os responsáveis devem ser punidos conforme a legislação brasileira profetiza!

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:

BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Tradução Sebastião Nascimento. São Paulo: Ed. 34, 2011.

BRAGA, Hans Robert Dalbello. Manual de direito penal: parte geral; coordenadores: Alexandre Ormonde, Luiz Roberto Carboni e Sérgio Gabriel. São Paulo: Rideel, 2018.

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal econômico, volume 1. São Paulo: Saraiva, 2016.

BUSATO, Paulo César. Fundamentos para um direito penal democrático. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2013.

SOUZA, Luciano Anderson de. Direito Penal Econômico – Fundamentos, Limites e Alternativas. São Paulo: Quartier Latin, 2012.

SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. A expansão do direito penal: aspectos da política criminal nas sociedades pós-industriais. 3. ed. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2013.

Hans Robert Dalbello Braga é professor de Direito Penal, Direito Processual Penal e Prática Jurídica Penal na Universidade Nove de Julho. Possui graduação em Direito pela Universidade Nove de Julho (2011). Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Penal e Processo Penal. Advogado Criminalista, aprovado no V Exame de Ordem. Pós-Graduado em Direito Penal pela Universidade Nove de Julho Sob orientação do Professor e mestre Claudio Mikio Suzuki para produção do Artigo para a Conclusão de Pós Graduação (A aplicação da teoria da tipicidade conglobante nas condutas do agentes infiltrados em organizações criminosas), publicado em obra coletiva . Aluno Regular do Curso de Mestrado em Direito da Universidade Nove de Julho.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Sobre o livro "Lula: A verdade vencerá"

Ato na praça Santos Andrade após o primeiro depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro em Curitiba;
10 mai. 2017
No dia 24 de janeiro de 2018, em Porto Alere, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve julagdo seu recurso à condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, proferida pelo juiz federal Sérgio Moro. Num jogo de cartas marcadas, três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4° Região (TRF-4) confirmaram a sentença e ampliaram a pena anterior. Nenhuma prova foi apresentada. Do lado de fora, dezenas de milhares de pessoas, na maioria trabalhadores e estudantes, manifestavam apoio ao mais popular líder político que a classe trabalhadora brasileira produziu - Ivana Jinkings
Esqueça por um momento seus preconceitos e por um momento foque na história. Sim, na leitura histórica de todos os fatos ocorridos até agora.

Uma operação que trouxe informações deverás preocupantes e que derrubou presidentes, não só em solo nacional, mas internacional (o vice-presidente do Equador, dois ex-presidentes do Peru, o ex-presidente de El Salvador e o ex-presidente do Panamá). Todos condenados depois das investigações da Lava-Jato.

Somando só no Brasil, são 177 condenações contra 113 pessoas. Mais de 1.753 anos e 7 meses de pena divididos para mais de uma centena de atores políticos e econômicos, com influência de norte a sul do país.

Agora chegamos a questão do livro da editora marxista Boitempo. Com um trabalho gráfico espetacular mesmo feito às pressas (prestando atenção nas datas, o texto da Ivana Jinking, fundadora e diretora da editora Boitempo, foi escrito dia 08 de março, o lançamento do livro foi feito uma semana e um dia depois, 16), trás não apenas uma entrevista de algumas dezenas de páginas com o ex-presidente, mas também textos de seus apoiadores.

Eric Nepomuceno, Luis Fernando Verissimo, Luis Felipe Miguel, Rafael Valim, Camilo Vannuchi, Luiz Felipe de Alencastro e uma tirinha de Laerte Coutinho complementam o livro, que trás fotos de momentos marcantes da carreira política de Lula. Os responsáveis por essa entrevista foram os jornalistas Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, o professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e à editora (já mencionada) Ivana Jinkings.

O livro, mesmo a revelia, nasce para entrar na história. Provavelmente vai se tornar leitura obrigatória para muitos pesquisadores do período lulopetista. Mesmo com alguns tropeços no português, deve ser levado em consideração (vamos lembrar do tempo curto para fazê-lo). É um livro de defesa, enviesado, de ponto de vista. Muitas vezes, nota-se a intensão, o viés, pelas notas de rodapé. Como por exemplo, quando falam do Bolsonaro:

"Defende a ditadura [eles escreveram ditatura, mas corrigi] militar e os torturadores – na votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, na Câmara, ao pronunciar seu voto, prestou homenagem ao coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o DOI-Codi entre 1970 e 1974. Condena os homossexuais, o feminismo, a política de cotas; defende a tortura e a pena de morte. Nacionalista do ponto de vista econômico no passado, adotou a perspectiva neoliberal desde 2017"

Ou sobre o Juiz Sérgio Moro: 

"Depois de um período de popularidade por construir uma imagem de juiz inflexível no combate à corrupção, tornou-se patente sua atuação de cunho político contra a esquerda e, em especial, contra o ex-presidente Lula. A Lava Jato passou a ser cada dia mais uma referência de desvio do Poder Judiciário, com a prática de falsificação de provas, chantagem e ameaças contra aqueles que a força-tarefa considerou seus alvos."

O livro tem uma fluidez interessante. A entrevista acontece de uma maneira quase camarada - eles começam comentando as rodadas do paulistão, falam sobre futebol e dali partem para o que realmente nos interessa: o que ele tem a dizer. Tem pontos interessantes, mas o que mais marca é como em torno do presidente existe um beija-mão.

Entendam, estamos prestes a ter mais uma eleição para a presidência da república. E um fato é notório: o amigo do presidente sobe com o presidente, e o amigo que cai com o presidente não existe. Quando ele fala que a Dilma, depois de ganhar a eleição de presidente em 2014 fala que não quer participar de mais nenhuma campanha eleitoral é notório que existe todo um sistema de cortejar o vencedor até começar sua sangria. "Você vai passar para a história como a única presidente que nem os ministros defenderam" diz Lula para Dilma (pág 32).

Esse livro deve ser leitura obrigatória para todos os que são partidários. O atual problema que enfrentamos no debate público é repertório. A direita só lê coisas que a direita escreve, mesmo quando esses textos falam da esquerda. A esquerda só lê coisas que a esquerda escreve, mesmo quando esses textos falam da direita. Essa obra pode ser um divisor de águas para muitas pessoas. Para quem gosta de spoilers:

Lula fala detalhadamente sobre a relação com Eduardo Campos com Dilma Rousseff e de uma possível candidatura de Eduardo a presidência com apoio do PT após a conclusão do mandato de Dilma em 2018.

O livro está disponível para compra e para download gratuito.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Cuidado com quem deixa seus filhos - via George Orwell



A REVOLUÇÃO DOS BICHOS


Capítulo 3


Napoleão [...] Dizia que a educação dos mais jovens era mais importante que qualquer coisa em favor dos adultos. Aconteceu que Lulu e Branca deram cria logo após a colheita [...] parindo nove robustos cachorrinhos. Tão logo foram desmamados, Napoleão os tirou das mães, dizendo que ele próprio se responsabilizaria por sua educação. Os levou para um sótão [...] e os manteve em tal reclusão que o resto da fazenda logo os esqueceu.

[...]


Capítulo 5


[...] Napoleão levantou-se, e dando uma estranha olhadela para Bola-de-Neve, soltou um guincho estridente que ninguém nunca ouvira antes.

Houve um terrível latido do lado de fora, nove cães enormes usando coleiras tachonadas de bronze entraram aos saltos [...] Se jogaram sobre Bola-de-Neve, que saltou do lugar onde estava, e saiu fugindo porta a fora com os cães em seu encalço, os bichos espantados olhavam os cães perseguirem Bola-de-Neve que corria pelo campo em direção a estrada, de repente ele caiu e pareceu que o apanhariam, mas levantou-se e continuou correndo, e mais à frente ganhou algumas polegadas e enfiou-se num buraco da sebe e sumiu.

Os animais assustados voltaram para o celeiro [...] e o mistério foi esclarecido, eles eram os pequenos cachorrinhos que Napoleão isolou dos outros animais e os criou secretamente, eram mal encarados como lobos, mas sacudiam a cauda para Napoleão.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Especial Círculo das Ideias: Sonhos Elétricos de Philip K. Dick #3: "Humano é"

Os olhos azuis de Jill Herrick se encheram de lágrimas. Ela olhou para seu marido com um horror inexprimível. - Philip K. Dick
Publicado na revista pulp Startling Stories em 1955, Humano é entra em um tema que permeia a obra do autor de certa maneira. Explorando diretamente a cerne o que é ser humano? PKD nos entrega uma história que visa a empatia acima de tudo. Ele quer mostrar que, não importa a sua natureza física (alienígena, humana ou robô) se você é uma pessoa gentil, empática, carinhosa, você é mais humano do que alguém que é cruel e indiferente.

O que nos difere de paus e pedras é a capacidade de sabermos nos colocar no lugar do outro. Nos importar com os nossos. E o problema não é biológico, é sobretudo moral. Consumidores de romances antigos, os Rexorianos falam de modo arcaico e se comportam de maneira bem diferente dos humanos e aprendem nosso comportamento a partir do convívio.


Bryan Cranston em Homem É, um dos episódios da série

A história novamente é atualizada pelas roteirista Jessica Mecklenburg. A diferença da série para o conto já começa pelos nomes. No livro, o personagem Lester é um cientista toxicologista insensível, egoísta e racional. No seriado, Silas (Bryan Cranston) é um coronel inflexível e áspero, doutrinado na disciplina militar. Sobre os dois, paira uma suspeita: serem possuídos por um alien, um rexoriano clandestino, e sua resposta está em suas respectivas mulheres, Jill e Vera (na série, Essie Davis).

Partindo de conceitos universais, a roteirista e o autor não só mostram que o mistério dos enredos não é saber se Lester ou Silas ainda são os mesmos, mas sim, entender o que eram antes. Ambas narrativas falam sobre a solidão e o vazio. A busca pela felicidade e os sacrifícios que estamos dispostos a fazer. É sobre a exploração do lado afetivo do ser humano, sobre relacionamentos abusivos e a o desejo de fugir para uma realidade melhor.

SOBRE O AUTOR
Considerado por Ursula K. Le Guin como Jorge Luis Borges norte-americano, Philip Kindred Dick nasceu na cidade de Chicago em 1928. De 1955, ano de seu primeiro livro, até 1982, Dick publicou 44 romances e 121 contos, uma média de um romance a cada sete meses e um conto a cada 81 dias, sem parar, por 27 anos. Entre eles Valis, Ubik, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch e os premiados O Homem do Castelo Alto (que dedicou para sua mulher Anne, que o desprezava dizendo que era um miserável e empalideceu ao descobrir os termos da dedicatória: Para Anne, minha mulher, de quem sem o silêncio eu não teria escrito esse livro) e Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial. O ritmo visivelmente frenético foi mantido à base de muita anfetamina – apesar dos boatos que sempre circularam à sua volta, Dick passou mais ou menos batido pelo LSD, a droga da moda na sua época, tendo apenas uma bad trip em toda sua vida (um boato divertido é que a revelação religiosa - ele foi durante a maior parte de sua vida adulta um católico convertido - que lhe ocorreu mais tarde seria um flashback dessa única viagem). Com dificuldades em ficar sozinho, teve cinco casamentos, um período de alguns meses em que sua casa se transformou num ponto de uso e tráfico de drogas, uma temporada voluntária numa clínica de reabilitação e até um par de semanas no apartamento de um casal de desconhecidos no Canadá. Morreu em 1982, aos 53 anos, em Santa Ana decorrência de um acidente vascular cerebral. Outros livros de sua autoria ainda seriam publicados postumamente, como Realidades Adaptadas, e é provável que ainda existam alguns por publicar (tipo, Sonhos Elétricos).