quinta-feira, 27 de julho de 2017

Circulo das Ideias - Dark Universe (Universo das Trevas)


O universo compartilhado com monstros da produtora Universal Pictures foi oficialmente intitulado como Dark Universe. Os chamados filmes de entretenimento, devem muito a Universal e seus famosos monstros, como Drácula, Frankenstein e Lobisomem, só para citar alguns, cujos primeiros filmes datam lá da década de 1930. Na época, essas produções faziam gelar o sangue do incauto público, que nunca havia presenciado nada do tipo (lembrem-se que há poucos anos o cinema havia sido criado, e as pessoas ficavam com medo de trens que chegavam às estações na tela, achando que viriam verdadeiramente para cima delas). A produtora resolveu reformular seus monstros utilizando a fórmula inovadora da Marvel podendo assim ter uma reunião no futuro, assim como acontecerá em Vingadores: Guerra Infinita. Inspirado nesse Universo das Trevas, o Golem trás para você uma seleção de livros e novelas que compõe esse novo universo cinematográfico e que podem incrementar o seu repertório no que se diz de literatura gótica, fantástica e científica. Os livros estão em ordem cronológica.


Frankenstein - Mary Shelley (1818)

O Corcunda de Notre Dame - Victor Hugo (1831)

O Médico e o Monstro - Robert Louis Stevenson (1885)

Drácula - Bram Stoker (1897)

O Homem Invisível - H. G. Wells (1897)

O Fantasma da Ópera - Gaston Leroux (1909)

A Hora do Lobisomem - Stephen King (1983)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Fotografias inomináveis - O modelo de Pickman (H.P. Lovecraft)


NÃO precisa pensar que estou louco, Eliot - muitos outros têm preconceitos mais bizarros que este. Por que você não ri do avô de Oliver, que não anda de automóvel? Se não gosto daquele maldito metrô, o problema é meu; e, de qualquer modo, nós chegamos aqui muito mais rápido com o táxi. Teróamos sido obrigados a caminhar ladeira acima desde Park Street se não tivéssemos tomado o carro. - H.P. Lovecraft
Compondo o Ciclo de Cthullhu da coletânea da editora Ex-Machina, O modelo de Pickman nos apresenta a narrativa contada por Thurber para Eliot, seu ouvinte. Ele conta como travou contato com a obra de Richard Upton Pickman, um pintor de Boston expulso da acadêmia por apresentar obras de arte mórbidas e como uma pesquisa sobre arte fantástica o deixo de nervos frágeis.

Escrito em 1926, o conto trás fontes históricas como os julgamentos das bruxas de Salem, ocorridos no século XVII, e trás para o plano de fundo do horror presente no tempo moderno - como as criaturas no metrô de Nova York e as fotografias dos modelos que o pintor usava.

A história é a aplicação de conceitos desenvolvidos em seu ensaio O Horror Sobrenatural Na Literatura também compara o trabalho de Pickman com o de vários artistas reais, incluindo John Henry Fuseli (1741-1825), Gustave Doré (1832-1883), Sidney Sime (1867-1941), Anthony Angarola (1893-1929), Francisco Goya (1746-1828) e Clark Ashton Smith (1893-1961). Com o passar da narrativa, nós vemos que Pickman não é um ser humano comum, se cogita durante a narrativa ele ser um changeling: uma criança trocada - a prole de uma criatura lendária que foi deixada secretamente em troca de uma criança humana.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Especial Círculo das Ideias: Mundos Paralelos #10 Fragmentos de Chris Salles


À minha frente, o vestido branco da noiva é engolido pelas sombras conforme avança beco adentro. Não há placas indicando o caminho, apenas uma passagem estreita e úmida onde o som dos nossos passos impera. Usando o seu smoking brilhante, o noivo olha para mim analisando se sou uma ameaça. Preocupação justificada. O fato de milhares de pessoas usarem o serviço ao redor do mundo não atenua sua condição ilegal. - Chris Salles

Certa vez, Philip K. Dick disse que suas obras acabavam girando em torno de duas perguntas: o que é realidade? e o que constitui um ser humano?. O conto de Chris Salles vai por essas duas linhas, destacando a segunda, que é a veia predominante da narrativa.

Para os leitores mais atentos dessa página, o conto vai lembrar a temática explorada na aventura de Douglas Quail em Lembramos para você a preço de atacado. As revelações, os desdobramentos na vida do personagem e uma grande máquina (empresa, corporação) por trás com procedimentos impensáveis.

O conto é narrado pela personagem Mona, que acaba tendo que fazer uma viagem de emergência através de uma empresa clandestina de teletransporte para chegar na Califórnia, mas a tecnologia (e o método) para isso não é exatamente como ela imaginava.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Um espirito em fuga - Aprisionado com os Faraós (H.P. Lovecraft)


Mistério atrai mistério. A partir da ampla divulgação do meu nome como artista de feitos inexplicáveis, deparei-me com relatos e eventos estranhos que as pessoas passaram a vincular aos meus interesses e atividades. Alguns foram comuns e irrelevantes, outros ainda produziram experiências esquisitas e arriscadas, e, por fim, alguns me envolveram em vastas pesquisas científicas e históricas. Muitos desses casos tornei públicos e vou continuar a falar a respeito deles com absoluta franqueza, mas eiste um sobre o qual falo com grande relutância e o qual estou contando agroa somente após uma reunião dura em que fui persuadido pelos editores de uma revista que tinham ouvido rumores vagos a esse respeito de outros membros da minha família. - H.P. Lovecraft

Publicado em maio de 1924 e reimpresso na edição de julho de 1939 da Weird Tales, o conto de Lovecraft narra as aventuras do mágico mais famoso do mundo na terra do Egito. Nosso narrador nos conta que, durante uma viagem ao Egito, teve curiosidade em visitar as pirâmides à noite, para que pudesse adentrar nos lugares proibidos e descobrir seus segredos. Seu desejo se realiza de forma abrupta, quando os nativos o acorrentam e abandonam no interior de uma das pirâmides, e o desafiam a sair de lá.

Dividido em duas partes, o conto explora o lado histórico do personagem e do ambiente. A primeira é a decoberta - a apresentação do narrador e uma grande aula sobre o Egito Antigo, a segunda é o desenvolvimento do horror com elementos religiosos, mostrando o arrependimento do próprio mágico de ter lido sobre as antiguidades do local e sua incredulidade diante os mistérios ancestrais: "as múmias compostas lideradas através dos vazios de ônix mais extremos pelo rei Quéfren e sua rainha necrófila Nitocris...".

Os mais atentos notaram indiretamente a presensa de um dos antigos mais conhecidos do mundo dos Cthulhu Mythos: Nyarlathotep. Houdini morreu dois anos depois do conto ser publicado, o que nos faz pensar no que o mágico pensou ao ler aquele conto - publicado por Lovecraft como ghost-writer. Por uma longa parte de sua vida o mágico passou a desmascarar espíritas e falsos médiuns, que empregavam truques semelhantes aos ilusionistas para enganar a fé de pessoas desesperadas em busca de conforto.

terça-feira, 4 de julho de 2017

DONZELA QUE VAI À GUERRA

Já se apregoam as guerras 
Entre a França e Aragão:
— Ai de mim que já sou velho, 
Não nas posso brigar, não!
De sete filhas que tenho
Sem nenhuma ser varão!...
Responde a filha mais velha
Com toda a resolução:
— Venham armas e cavalo
Que eu serei filho varão.
—Tendes los olhos mui vivos.
Filha, conhecer-vos-ão.
— Quando passar pela armada
Porei os olhos no chão.
—Tendes los ombros mui altos
Filha, conhecer-vos-ão.
— Venha gibão apertado,
Os peitos encolherão.
—Tend’-las mãos pequeninas
Filha, conhecer-vos-ão.
— Venham já guantes de ferro
E compridas ficarão."
— Tend’ los pés delicados,
Filha, conhecer-vos-ão."
— Calçarei botas e esporas, 
Nunca delas sairão.
— Senhor pai, senhora mãe, 
Grande dor de coração,
Que os olhos do conde Daros 
São de mulher, de homem não.
— Convidai-o vós meu filho
Para ir convosco ao pomar, 
Que, se ele mulher for,
À maçã se há-de pegar.

A donzela, por discreta,
O camoez foi apanhar.
— Oh que belos camoezes
Para um homem cheirar!
Lindas maçãs para damas
Quem lhas pudera levar.
— Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração,
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não."
Convidai-o vós, meu filho, 
Para convosco jantar,
Que, se ele mulher for, 
No estrado se há-de encruzar.
A donzela por discreta,
Nos altos se foi sentar.
— Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração,
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.
— Convidai-o vós, meu filho, 
Para convosco feirar, 
Que, se ele mulher for, 
Às fitas se há-de pegar.
A donzela, por discreta, 
Uma adaga foi comprar.
— Oh que bela adaga esta
Para com homens brigar!
Lindas fitas para damas:
Quem lhas pudera levar!
— Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração, 
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.
— Convidai-o vó, meu filho,
Para convosco nadar,
Que, se ele mulher for, 

O convite há-de escusar.
A donzela, por discreta
Começou-se a desnudar...
Traz-lhe o seu page uma carta, 
Pôs-se a ler e pôs-se a chorar.
— Novas me chegam agora,
Novas de grande pesar:
De que minha mãe é morta,
Meu pai se está a finar.
Os sinos da minha terra
Os estou a ouvir dobrar
E duas irmãs que eu tenho
Daqui as oiço chorar.
Monta, monta, cavaleiro,
Se me quer acompanhar.
Chegavam a uns altos paços, 
Foram-se logo apear.
— Senhor pai, trago-lhe um genro, 
Se o quiser aceitar;
Foi meu capitão na guerra, 
De amores me quis contar...
Se ainda me quer agora
Com meu pai há-de falar.
Sete anos andei na guerra
E fiz de filho varão.
Ninguém me conheceu nunca
Senão o meu capitão;
Conheceu-me pelos olhos,
Que por outra coisa não.

in "O Romanceiro" 
Coligido por Almeida Garrett
Ed. Lello, 1971  (3 volumes)
500 páginas
2700$00